Desemprego: brasileiros voltam a conviver com o círculo vicioso
A saúde econômica de um país é espelhada pelo mercado de trabalho. Se a primeira vai mal, o reflexo vem na forma de fechamento de vagas. No Brasil, que vive um cenário de recessão, a desaceleração econômica puxa a alta do desemprego. Foi assim em 2015, quando o Produto Interno Bruto (PIB) do país recuou 3,8%, o pior resultado em 25 anos, e o desemprego teve uma taxa média recorde de 8,5%, segundo os dados da Pnad Contínua, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No total, 9 milhões de pessoas estavam sem ocupação nos últimos três meses do ano passado.
A Pnad Contínua com os dados de janeiro, divulgada na última quinta-feira, mostrou que a taxa de desemprego chegou a 9,5% no intervalo entre novembro e janeiro. Outro levantamento do instituto, a Pesquisa Mensal de Emprego (PME), que abrange as seis principais regiões metropolitanas do país, mostrou que o desemprego nas metrópoles atingiu 8,2% em fevereiro, maior índice para o mês desde 2009. Em paralelo, houve uma queda na renda média das pessoas ocupadas, que está retornando aos níveis de 2012.
A retração da economia mexe diretamente com o mercado de trabalho – mas não são só as estatísticas que atestam o quadro negativo. Perder o emprego é um golpe não apenas para o bolso, mas para a autoestima de pais e mães de família. O padrão de consumo cai, serviços não-essenciais deixam de ser contratados e bens duráveis deixam de ser substituídos. A redução ou mesmo eliminação de prosaicas regalias conquistadas pelas famílias nos anos de bonança também ajuda a explicar o quadro do desemprego no país.
É o caso do gerente de contas Márcio Hermínio, de 30 anos, demitido em agosto. Com a falta de trabalho, ele teve que adaptar seu estilo de vida. Passou a não comer mais fora de casa para economizar, por exemplo. Hoje, faz compras e cozinha em sua casa, onde mora com três amigos. A decisão de Hermínio e milhões de outros consumidores aparece nos dados da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel): o faturamento do setor teve queda real (descontada a inflação), de 3% em 2015, para 149 milhões de reais. O gerente de contas também sacrificou sua vida social. “Eu costumava sair todo fim de semana, viajava com frequência, ia à praia”, conta. Nada disso faz mais parte de sua rotina. Os hábitos do dia a dia também tiveram que ser readequados. Para economizar combustível, ele tem usado o carro quase que exclusivamente nos fins de semana. “Se a situação continuar como está, eu penso em vendê-lo até o meio do ano.”
A deterioração no mercado de trabalho causa um efeito em cadeia em diversos setores da economia. Sem emprego e com menos dinheiro, a inadimplência sobe, as pessoas adiam a compra de bens duráveis, como móveis e eletrodomésticos, e, além disso, cortam serviços não-essenciais, como planos de saúde e escola particular. No caso dos planos de saúde, por exemplo, o número de beneficiários caiu em quase 1 milhão em dezembro no ano passado, segundo dados da Associação Nacional de Saúde (ANS). Foi o primeiro recui em dez anos.
A perda de ocupação dos chefes de família estimula pessoas que já estavam sem emprego a voltar a procurar uma ocupação para recompor a renda familiar – e isso alimenta o círculo vicioso do desemprego, já que acirra a disputa pelas já escassas vagas. Entre essas pessoas, há um contingente de jovens que até pouco tempo atrás não estudavam nem trabalhavam, os chamados “nem-nem”.
O adolescente Eduardo Albuquerque, de 17 anos, está parado desde janeiro. “Quero assumir responsabilidades para ajudar minha mãe, que não trabalha, e servir de referência para as minhas quatro irmãs”, diz. Ele não encontra um trabalho fixo há três meses. No momento, pensa em fazer curso de tatuagem e de cabeleireiro para tentar novas ocupações.
Com mais gente desocupada, cresce a busca por bicos, como os buscados por Albuquerque. A taxa de informalidade, que vinha em tendência de queda até o segundo trimestre de 2014, quanto atingiu 43,9%, passou a subir, alcançando 45,1% no terceiro trimestre de 2015, segundo a pesquisa mais recente sobre o tema feita pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). “No quadro macroeconômico, o país está muito mal”, diz o professor da Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo (FEA-USP) José Paulo Zeetano Chahad.
A indústria foi o setor que mais demitiu no ano passado, com mais de 600.000 vagas eliminadas, segundo o Caged. Mas o que mais assusta, segundo analistas pelo site de VEJA, é o desempenho do setor de serviços. Esse segmento da economia, que já respondeu por 85% da criação de novos empregos, registrou no ano passado, pela primeira vez, um desempenho negativo, com o fechamento de 276.000 vagas formais. “Isso fecha uma importante válvula de escape para quem perde o emprego na indústria e na construção civil. Antes o brasileiro abria uma loja, um salão de beleza. Hoje, com a fraca demanda, nem isso acontece”, explica José Pastore, professor da FEA-USP.
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