26/04/2017 11h17 (atualização às 17h15) Foto: Filipe Lemos/Campos 24 Horas
Após o pedido de reintegração de posse feito na última semana pela Companhia de Desenvolvimento Industrial do Estado do Rio de Janeiro (Codim), Grussaí Siderúrgica do Açu Ltda (GSA) e Porto do Açu Operações S.A., das terras desapropriadas pelo governo estadual na área do 5º distrito de São João da Barra, em 2009, a Defensoria Pública pediu o indeferimento da liminar. O Ministério Público se posicionou, também pedindo o indeferimento. O juiz do caso preferiu marcar uma audiência com o propósito de obter a solução consensual do conflito
Desde quarta-feira da semana passada, agricultores e produtores rurais estão acampados em terras na localidade de Palmeiral, com apoio de representantes do Movimento do Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), também no local. De acordo com eles, nas terras desapropriadas, atualmente só há mato e elas não cumprem função social, como prevê os artigos 5o., XXIII, 170, III da Constituição Brasileira. Mas a luta está apenas começando.
No próximo dia 12 de maio, os agricultores terão uma audiência de conciliação com o juiz da 1ª Vara de São João da Barra. No ato, poderá haver acordo entre produtores e a Companhia de Desenvolvimento Industrial do Estado do Rio de Janeiro (Codim), a GSA Grussaí Siderúrgica do Açu e a Porto do Açu Operações, autoras da ação.
O produtor rural, Vilson José Alves de Almeida, um dos representantes da categoria acampado no local, muitos ainda nem receberam pelo negócio e os que conseguiram, tiveram prejuízo, levando em consideração que o valor do hectare foi estipulado abaixo do mercado.”A nossa luta continua, não vamos esmorecer”, finaliza Vilson José.
O representante da direção estadual do MST, Marcelo Durão, explica que a negociação, iniciada em 2008, não vale mais, porque a validade jurídica do ato de desapropriação é de cinco anos e já caminha para 10, sem falar que não foi cumprido em sua totalidade.
Abaixo segue a decisão integral do juiz:
Processo nº: 0000721-89.2017.8.19.0053
Tipo do Movimento: Decisão
Tipo do Movimento: Decisão
Descrição:
COMPANHIA DE DESENVOLVIMENTO INDUSTRIAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO; GSA – GRUSSAÍ SIDERÚRGICA DO AÇU Ltda. e PORTO DO AÇU OPERAÇÕES S.A. ajuizaram ação de reintegração de posse em face de ASSOCIAÇÃO DOS PROPRIETÁRIOS DE IMÓVEIS E MORADORES DO AÇÚ, CAMPO DA PRAIA, PIPEIRAS, BARCELOS E CAJUEIRO, INTEGRANTES DO MOVIMENTO DOS TRABALHADORES RURAIS SEM TERRA e TERCEIROS NÃO IDENTIFICADOS. Como causa de pedir afirmaram que o Estado do Rio de Janeiro criou o Distrito Industrial de São João da Barra destinado a receber instalação de estabelecimentos industriais. Para implementação do distrito foram editados diversos decretos que declararam a utilidade pública da área, em favor da CODIN. Sustentou que o Juízo da 1ª Vara da Comarca de São João da Barra deferiu medida liminar de imissão provisória na posse em favor da CODIN, que celebrou termos de cessão de posse de imóvel em favor dos demais autores desde 27/07/2012. Narrou, por fim, que em 19.04.2017 os réus invadiram irregularmente os imóveis objeto da ação, se recusando a dali sair. A Defensoria Pública ingressou no feito às fls. 447/452 pleiteando o indeferimento da liminar e a designação de audiência especial para solução amistosa do conflito. O Ministério Público manifestou-se às fls. 498/500 pelo indeferimento da liminar e pela designação de audiência. É o relatório. Decido. É fato público e notório que grande parte da área rural situada no distrito do Açú foi desapropriada pelo Estado do Rio de Janeiro para construção do Porto do Açú. Alguns proprietários aceitaram a desapropriação de forma amigável e foram indenizados. Outros proprietários não concordaram com o valor proposto e foram ajuizadas ações de desapropriação. Existe ainda, um terceiro grupo, mais vulnerável, que se trata daqueles ocupantes que não possuíam documentos de propriedade das terras, tratando-se, na verdade, de possuidores – muitas vezes não identificados – que foram desalijados de suas terras sem que tenham recebido qualquer indenização até a presente data. Esse é o relato do quadro dramático que se instalou no Município, que só piora com a crise econômica instalada no País, na medida em que menos de 10% da área efetivamente desapropriada se tornou produtiva com o Porto, que inicialmente teria uma dimensão muito maior do que a que se revela hoje. A título ilustrativo, só nesta 1ª Vara da Comarca de São João da Barra, tramitam, atualmente 223 processos de desapropriação movidos pela CODIN. Este acervo não considera as ações já julgadas e baixadas e tampouco o acervo da 2ª Vara desta Comarca. Também não considera as ações propostas por possuidores e proprietários em face dos autores. A posse e também a propriedade que justificam a proteção possessória só podem ser aquelas que exercem a sua função social. É o que se extrai dos artigos 5º, XXIII, 170, III, da CRFB/88. Desapropriar área rural, dela retirando seus legítimos possuidores que viviam de pequenas culturas e exploração de gado, geralmente em regime familiar e em muitos casos sem nada receber para simplesmente deixar a área parada aguardando valorização imobiliária configura ato ilícito. As fotografias de fls. 461/487 comprovam que na área não existe nada além de mato. Com razão o ilustre Promotor de Justiça, às fls. 499: ´ Isto porque o que foi ponderado pela Defensoria e que merece a devida consideração é que, após imitido na posse das terras do distrito do Açu, nem o Estado, nem os seus cessionários, efetivamente a ocuparam, nelas instalando algum equipamento ou demonstrando a imprescindibilidade das mesmas ante o atual redimensionamento do empreendimento, limitando-se a cercar a terra, o que, por si só, não parece evidência de posse efetiva.´ Ora, se devido à conjuntura econômica o projeto do distrito industrial reduziu de tamanho, é necessário redimensionar o projeto e readequá-lo às atuais necessidades. Como bem apontado pela Defensoria Pública e pelo Ministério Público, os autores não demonstraram a efetiva posse sobre os imóveis. A simples instalação de cercas, sem nenhuma benfeitoria ou utilização do terreno não configuram posse a ser protegida. Ausente, portanto, o requisito previsto no art. 561, I, do CPC. Tal fato, por si só, já é suficiente para indeferir o pleito dos autores. No entanto, firme no propósito de obter a solução consensual do conflito, cotejando de um lado o direito dos autores à ocupação (desde que seja efetiva e justa) da área e, de outro lado, o direito dos possuidores desalijados da terra sem indenização de receberem o valor justo, designo audiência de conciliação para o dia 12/05/2017, às 14h. Deverão os autores apresentarem, na Audiência, comprovação da realização de alguma benfeitoria nas terras em cuja posse pretendem a reintegração, assim como seu uso efetivo e potencial para o empreendimento efetivamente instalado. Deverão também trazer croqui da área objeto desta lide e sua distância até o local onde instalado o porto do Açú. Além disso, deverão apresentar plano objetivo de exploração da área desapropriada. De igual forma, os representantes dos réus deverão trazer uma pauta objetiva para que seja alcançada a conciliação. Intimem-se.
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