segunda-feira, 26 de junho de 2017

Autoteste de Aids chega às farmácias do país; militantes da causa fazem ressalvas


No final desta semana ou, no máximo, a partir dos primeiros dias de julho, já estará à disposição nas farmácias de todo o país, o primeiro autoteste para detecção do HIV, o vírus causador da Aids, autorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para fabricação e comercialização no Brasil. Trata-se do Action, fabricado pela empresa do Rio de Janeiro, Orange Life, do médico italiano Marco Collovati. Mas, pessoas que lidam com a prevenção e combate a doença há anos fazem ressalta, não ao autoteste, mas à falta de informação do governo federal para com a população ao liberar à venda sem maiores informações.
Há quase 30 anos na luta com portadores do vírus HIV, a fundadora da Associação Irmãos da Solidariedade, Fátima Castro, explica que alguns pontos e esclarecimentos têm que ser levados em conta antes da realização de um autoteste de Aids. “O que vai aparecer de pessoas que se relacionaram sem os cuidados há uma semana, por exemplo, querendo fazer o teste, não vai ser brincadeira. Muita gente ainda desconhece o tempo da chamada ‘janela imunológica’, que é o intervalo de tempo decorrido entre a infecção pelo HIV até a primeira detecção de anticorpos anti-HIV produzidos pelo sistema de defesa do organismo, neste caso de, no mínimo, 30 dias”, afirma Fátima Castro.
– Se um teste para detecção de anticorpos anti-HIV é realizado durante o período da janela imunológica, há a possibilidade de gerar um resultado não reagente. Desta forma recomenda-se que, nos casos de testes com resultados não reagentes em que permaneça a suspeita de infecção pelo HIV, a testagem seja repetida após 30 dias com a coleta de uma nova amostra. É importante ressaltar que, no período de janela imunológica, o vírus do HIV já pode ser transmitido, mesmo nos casos em que o resultado do teste que detecta anticorpos anti-HIV for não reagente – acrescenta a presidente da Associação Irmãos da Solidariedade.
Para Fátima Castro, existe ainda outro fator muito sério na questão do autoteste de Aids:  o psicológico. Ela explica que uma coisa é a pessoa fazer um autoteste de glicose ou similar, por exemplo, e descobrir que não está bem mais que, em contrapartida, poderá tomar algumas medidas e daqui a pouco estar quase curado. Outra coisa é a pessoa receber um resultado de uma doença que não tem cura e que poderá causar uma série de outras patologias caso não sejam tomadas providências imediatas. “Para muitos isso é uma sentença de morte. Não se entrega um resultado desse sem acompanhamento de um profissional especializado, porque ninguém sabe como ela se comportará a partir daquele exame”, acrescenta.
ACTION – O produto é mais uma importante arma para o cumprimento da chamada estratégia 90-90-90 do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) para acabar com a epidemia da doença, na opinião do médico Marco Collovati, fundador da empresa Orange Life, sediada em Vargem Pequena, Zona Oeste do Rio.
Isto, porque, o primeiro pilar da estratégia é justamente que até 2020 ao menos 90% das pessoas contaminadas pelo vírus saibam de seu status de soropositivas, continuando então para que pelo menos 90% delas recebam tratamento antirretroviral, de forma que no mínimo 90% dessas tenham supressão de sua carga viral.
– O Brasil sempre foi líder mundial no combate e prevenção do HIV, passos à frente de outros países, mas o último que faltava era liberar os autotestes, já aprovados nos EUA, Reino Unido, França, Austrália e outros – diz Collovati, destacando estimativas que apontam que cerca de 500 mil brasileiros com o vírus não sabem que são soropositivos.

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